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Manifesto

MANIFESTO DO GRANDE ORIENTE DE MINAS GERAIS EM REPÚDIO À ATUAL CRISE POLÍTICA E SOCIAL DO BRASIL, EM DISCURSO PROFERIDO NA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, EM 22 DE AGOSTO DE 2005, POR OCASIÃO DA SESSÃO SOLENE DE COMEMORAÇÃO DO DIA DO MAÇOM, REQUERIDA PELOS DEPUTADOS MAÇONS, DOMINGOS SÁVIO E PAULO PIAU.

Aqui estou para dirigir-vos algumas palavras sobre o "DIA DA MAÇONARIA", nesta sessão solene que lhe dedica a Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais.

Aqui está representada a maçonaria Mineira por suas três Obediências - Grande Oriente do Estado de Minas Gerais, Grande Loja Maçônica de Minas Gerais e Grande Oriente de Minas Gerais, em nome do qual vos fala este Grão-Mestre.

A Maçonaria, como é geralmente definida, é uma Instituição iniciática, progressista, beneficente, liberal, educativa e filosófica, que tem por objetivo o aperfeiçoamento moral, espiritual, social e cultural do homem.

Constituída de homens livres e de bons costumes, representativos de todos os segmentos sociais, unidos num ideal comum, tem uma história de lutas e glórias em todos os países em que se acha instalada. É regida por leis próprias, fortalecida e cimentada por princípios previamente estabelecidos.

As grandes transformações sociais do mundo, desde o século XVII, contaram com a participação maçônica.

Podemos, assim, lembrar a participação maçônica na independência dos Estados Unidos, em que quase todos os signatários da Declaração da Independência eram Maçons; na Revolução Francesa, como se pode ver na Declaração dos Direitos do Homem; na luta pela extinção da escravatura nos séculos XVIII e XIX; na independência das Colônias da América Espanhola; na unificação da Itália; na primeira guerra mundial; na resistência francesa, durante a segunda guerra mundial, e na luta subterrânea contra regimes totalitários.

Quanto ao Brasil, vencidas as barreiras do silêncio, está plenamente reconhecida a participação dos Maçons nos grandes acontecimentos da nossa História.

Jovens brasileiros, mandados à Europa para estudar, de lá trouxeram o ideal libertário para plantá-lo no coração de Minas Gerais. Aqui ele brotou e floresceu. Muitos deles dedicaram suas vidas a esse ideário e as deixaram em holocausto no altar sagrado da liberdade.

A seguir, a participação maçônica se fez presente em outros grandes acontecimentos da História do Brasil, como a Revolução Pernambucana de 18l7; a Independência do Brasil em 1822, a obra máxima da Maçonaria brasileira, em que se distinguiram homens da estatura moral de José Bonifácio e Joaquim Gonçalves Ledo; a Confederação do Equador em 1824; a abdicação de Pedro I; a Regência e a maioridade de Pedro II; a Guerra dos Farrapos; a Revolução Liberal de 1842; a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, cujo primeiro ministério era totalmente composto por maçons, tendo por chefe e primeiro presidente da República o Marechal Deodoro da Fonseca, maçom e Grão-Mestre.

Na primeira República, chamada "República Velha", os maçons brasileiros prosseguiram seus trabalhos para assegurar a estabilidade do regime com presidentes maçons, como o Marechal Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Campos Sales, Wenceslau Braz, Nilo Peçanha e Washington Luiz.

Em todos os movimentos políticos, após o término da República Velha, tais como a República Nova (1930-1937); o Estado Novo e o fechamento das Lojas Maçônicas; a Segunda Guerra Mundial; a redemocratização do país; o movimento de 1964; a abertura política; a anistia e reconstrução democrática, sempre atuou a maçonaria na defesa da liberdade e dos direitos humanos.

Nessas transformações, colaboraram grandes Maçons, empenhados na elaboração e fixação da política nacional.

Não sendo órgão de nenhum agrupamento político, religioso ou social, a Maçonaria se dedica ao estudo e solução de todos os problemas humanos que atormentam o homem, disseminando as idéias de paz, de justiça e fraternidade, sem distinção de raça, credo ou nacionalidade.

Nossa Fraternidade congrega e reúne seus membros num mesmo ideal, ligando-os num mesmo sentimento, numa só família, sem interferência nas crenças religiosas e filiações políticas de seus membros, desde que compatíveis com os princípios maçônicos.

Atualmente, no Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas Estaduais, nas Câmaras Municipais, nos Poderes Executivo e Judiciário, nos Estados e Municípios, está a Maçonaria representada por muitos de seus membros, participando ativamente da vida pública, trabalhando, discretamente, a serviço do bem comum e da sociedade, em consonância com os preceitos defendidos por nossa Ordem.

Por seus elevados objetivos, pelos benefícios prestados à pátria e às comunidades locais pelos Maçons, no passado e no presente, a Ordem Maçônica se sente honrada e reconhecida por esta homenagem que ora lhe presta a Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, na qual está representada a maçonaria mineira por ilustres e operosos deputados, de que muito nos orgulhamos.

As grandes transformações sociais operadas em nosso Estado vêm contando com a participação e apoio da Maçonaria Mineira. Nessas transformações participam grandes maçons, empenhados na elaboração e fixação do progresso em nosso Estado, na política, na administração pública e particular, no comércio, na indústria, na artes e ciências em geral.

Numa decisão, eminentemente maçônica, as três Obediências mineiras firmaram, em 2002, o Pacto de União da Maçonaria Mineira, para, juntas e num esforço comum, de mãos dadas, trabalharem mais eficazmente para a realização de seus objetivos maçônicos e sociais.

Sem prejuízo dos seus princípios básicos, a Maçonaria, como instituição humana, não poderia nem poderá ficar indiferente à ação política e social, atuando, porém, dentro de seus padrões éticos, consubstanciados na própria essência sociológica da política, para manter as grandes conquistas sociais da humanidade.

Contra a crise política que estamos vivendo, diariamente divulgada pelos órgãos de comunicação, com repercussões desastrosas, pondo à mostra o maior sistema de corrupção já instalado no país, ferindo de morte a ética e a moral, já se erguem as vozes indignadas das nossas Lojas e Irmãos.

A corrupção nasce das fragilidades institucionais e da ineficiência da gestão administrativa do país nos três poderes e nas três esferas: federal, estadual e municipal.

Elas nascem da ausência de uma série de medidas legislativas, necessárias à implantação de programas de modernização administrativas da máquina pública e social.

A reforma não deve ser apenas política nem apenas ética. Deverá ter um sólido embasamento moral, doutrinário, idealístico, como formação de caráter, patriotismo, sentimento de dever e humanidade. Tudo isso contêm os princípios e preceitos maçônicos, a que devem recorrer os nossos deputados maçons na elaboração das leis.

Impõe-se, pois, uma tomada de posição do Grande Oriente de Minas Gerais, membro da Confederação Maçônica do Brasil - COMAB, ante tal aberração e escândalo. Todas as pessoas de bons costumes, maçons ou não, estão estarrecidas e perplexas. Quanto mais se mexe e remexe no lamaçal dos escândalos públicos e políticos, mais emergem os detritos da corrupção e imoralidade de congressistas, lobistas, administradores de empresas e intermediários de negócios escusos, envolvendo ex-secretárias, ex-mulheres, secretários e tesoureiros de partidos políticos, além de denúncias e delações premiadas e caluniosas de criminosos.

Doações, destinações não comprovadas, propinas, mesadas, ou mensalões, desvios de parcelas, remessas de dinheiro para o exterior, aquisições de propriedades com recursos desviados de sua destinação, tudo isso vem sendo praticado como se fosse normal.

Tudo isso constitui um rosário de crimes, de abusos, de práticas ilegais e imorais, cometidos, ora à luz do dia, ora no recôndito dos gabinetes, sob o pálio de um cargo público, político ou particular, à sombra de altos dignitários da República.

Que fazer para que não ocorra a desmoralização total da atividade pública e política?

O descaramento com que se praticam tais falcatruas leva-nos a terríveis reflexões. Assusta-nos o quanto tem sido fácil o exercício da corrupção administrativa e política. Em tais situações, nem disfarces há: opera-se abertamente, como se percebe claramente em depoimentos de alguns notórios corruptos e corruptores. Fica à mostra toda uma máquina viciosa, conivente, que tem permitido o mau uso e manuseio do dinheiro público.

Corrupção é o desvio de normas, de leis e dos padrões de moralidade aceitos pela sociedade. É a progressiva desintegração do homem, mediante a ação de fatores internos e externos. Temos a corrupção moral, que é a depravação progressiva dos costumes. O corrupto e o corruptor não têm escrúpulos morais nem respeito aos direitos alheios. Tudo vale para realizar seus desejos insaciáveis. Já a corrupção administrativa e política é o aproveitamento sistemático do cargo público para a satisfação de interesses pessoais, comumente de natureza pecuniária.

Assim, o poder invisível, com sua mão gatuna, vai apropriando-se das verbas públicas e fazendo a fortuna de maus políticos, de maus administradores, de maus empreiteiros, de maus congressistas, secretários e tesoureiros.

Os depoimentos dos mentores e participantes de tais distribuições de dinheiro, se, por um lado, não surpreendem, porque já conhecidos por seu passado, por outro lado, quanto a outros até então tidos e havidos por honestos, nos deixam chocados e decepcionados. O pior de tudo são as indagações: serão punidos, seus bens ilegalmente adquiridos serão confiscados, seus depósitos em bancos serão bloqueados, seus investimentos nos chamados paraísos fiscais serão descobertos e revelados, originários da rapinagem?

Exige-se, pois, ação enérgica dos órgãos públicos, dos partidos políticos, do Congresso Nacional, da Polícia e da Justiça. Que sejam extirpados da vida pública aqueles que lhe maculam a imagem, que lhes arranham a credibilidade, que agridem a Nação pela apropriação de recursos que deveriam ser utilizados para o bem público.

Punir exemplarmente os culpados é exigência pela qual clama a consciência nacional.

Aqui, desta tribuna, sob o pálio desta Casa Legislativa, onde militam os nobres representantes do povo mineiro, que tão grandes serviços têm prestado ao nosso Estado e à causa pública, o Grande Oriente de Minas Gerais também ergue sua voz de protesto e indignação contra a calamidade pública que assola o nosso país.

Cumpre-nos despertar nos cidadãos o valor da ética social. Não nos deixemos dominar pelo comodismo, pelo desânimo, pela desesperança. Orgulhemo-nos de ser corretos e envergonhemo-nos da prática de ações condenáveis. Não sejamos cúmplices do suborno e do tráfico de influências ou de qualquer procedimento indigno.

Preservemos, a todo o custo, o sistema de moralidade que nos incute a Ordem Maçônica.

Este é o pensamento do Grande Oriente de Minas Gerais, suas Lojas e seus obreiros, unidos numa cruzada moral pela restauração da lisura, da probidade e da correção na vida pública e social, para que nossa Pátria emerja limpa e pura do lodaçal em que a estão lançando e possa viver a verdadeira democracia.

Fechemos esta página com o Padre Antônio Vieira: "Miserável não é a República onde há delitos, senão onde falta a punição deles".

Recebam, nobres deputados, o mais caloroso e fraternal reconhecimento e a expressão da nossa estima e gratidão.


Muito Obrigado!